São Silvestre

Daí que um dos itens da minha Bucket List era correr a São Silvestre.

Como 90% dos brasileiros, passei grande parte dos dias 31 de Dezembro da minha infância assistindo a Corrida de São Silvestre com o meu pai.

Quando eu era criança, a corrida era à tarde. Me lembro de assistir a São Silvestre com meu pai enquanto rolavam os últimos preparativos da ceia de Ano Novo lá em casa. Acompanhava aqueles quenianos correndo como se fosse algo que eu nunca na vida fosse ser capaz de fazer.

Nunca fui nem perto do que possa ser considerado um atleta (nem amador!) quando era criança ou adolescente. Sempre fiz exercício (balé, jazz, academia, yoga, pilates) porque sempre tive muita energia, então sempre precisei gastá-la. Mas correr nunca fez parte da minha vida até 3 anos atrás.

A culpa foi do meu namorado, que já corria e, inclusive, já havia corrido uma meia maratona do Rio! Depois de várias felizes coincidências, que conto numa outra oportunidade, comecei a treinar certinho e consegui correr 12km num belíssimo sábado de sol na Lagoa, do qual nunca vou me esquecer. Porque, no início, dar 1 volta na Lagoa parecia impossível. Então, naquele dia, uns 2 anos depois de começar a correr 3 vezes por semana, dei uma volta (7,5km) e mais um outro tanto (5km) e sobrevivi. Na verdade, me senti um máximo!

Uns 6 meses depois desse glorioso dia e tudo parecia ter mudado. Parei de treinar e me vi decidida a pagar o treinador do meu bolso (até então a minha empresa pagava o meu treinador) porque cheguei à conclusão que não faria nada se não tivesse alguém pra me cobrar. Paguei. E decidi que, se era pra voltar a correr, teria um meta pra me incentivar. E se era pra pagar pra correr alguma coisa, ia gastar R$ 150 pra correr a São Silvestre, algo que sempre me pareceu impossível de realizar, mas que havia se tornado até bem possível depois dos 12km.

Me inscrevi e voltei a treinar.

Tenho que confessar que não treinei direito. Faltei vários treinos e, pior, deixei de fazer vários longões (treinos mais longos normalmente feitos aos sábados). Porque, no meio do caminho, comecei a fazer uma pós graduação aos sábados e ainda tinha todos os compromissos de fim do ano… Me dei mal.

Mas embarquei pra São Paulo feliz da vida, tipo criança. Fui vendo a geografia maravilhosa que existe entre Rio e São Paulo do alto do avião #NerdezaGeográfica Fiquei 1 hora na fila pra pegar o kit e mantive a dieta na véspera. Aproveitei pra visitar meu amigo Monet no MASP. Dormi ansiosa e acordei animadíssima!

A prova começou pra mim 20 minutos depois da largada oficial, pois esse foi o tempo que eu levei pra chegar de onde eu tava até a largada, com o mar de gente que tinha na Paulista. O início da corrida foi tipo o Bola Preta, só que com corredores no lugar de foliões bêbados. Lindo, lindo, lindo. O povo animadíssimo dentro dos 2 mergulhões foi de arrepiar!

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Dali seguimos por uma parte mais residencial de São Paulo. Corri esse início todo do lado das meninas da minha assessoria e da nossa treinadora, o que foi um incentivo a mais. Só me separei delas no 1º posto de hidratação.

Pausa pra explicar o drama: sabia que estaria MUITO CALOR, então reforcei a hidratação no dia anterior, bebendo quase 4 litros de água. Conversando com 3 pessoas que haviam corrido a prova no ano anterior, fiquei sabendo que a hidratação tinha sido “perfeita”, com distribuição de Gatorade e tudo. Fiquei tranquila. Levei uma mini garrafa de água pra largada, que terminei de beber antes de começar a correr e fiquei esperando a hidratação perfeita da São Silvestre. Mas não foi nem um pouco perfeita.

Como eu larguei 20 minutos depois do início oficial e corro devagar (meu pace confortável é 7!), só consegui pegar água no 1º posto de hidratação. Quando cheguei no 2º posto, a água tinha acabado e está começando uma pequena confusão que, graças a Deus e aos ânimos pacíficos brasileiros, não deu em nada.

As meninas da minha assessoria e a treinadora, todas tinham mochila de hidratação e 2 litros de água garantidas. Eu não. Parei no 1º posto, peguei 2 copinhos de água e me separei delas.

Entre o 1º e o 2º posto de hidratação, havia um pedaço enorme de chão. E zero sombra. Zero. Passei emocionada do lado dos moradores de rua de um abrigo que estavam do lado de fora para torcer pela gente

Nessa hora, meu pensamento já era: “se tiver alguém vendendo água, eu compro”. Mas não tinha nenhum vendedor sequer!

E até eu encontrar a água, precisaria subir o que parecia uma subida infinita de um viaduto que só pode ser “obra do cão”!

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No meio da subida, já estava desidratada, com dor de cabeça e a boa mais seca que o deserto do Saara!

Cheguei no 2º posto de hidratação e vi o início de confusão. Mas Deus é foda e tinha um posto de gasolina logo atrás, COM LOJA DE CONVENIÊNCIA aberta em pleno último dia do ano. Olha, o caixa desse estabelecimento deve ter recebido umas 500 graças desde então porque não foi pouca gente que agradeceu a Deus por ele estar trabalhando, sozinho, na maior boa vontade do mundo, naquele posto no meio do caminho da São Silvestre. Amigo do posto Shell, valeu!

Foram uns 10 minutos no mínimo na fila. Fiz até amizades! E mandei mensagem pra família dizendo que estava faltando água, mas que eu tinha levado R$50 (abençoado seja o momento que resolvi colocar esse $ no bolso do short!) e tava comprando água e Gatorade.

Foi o que me salvou. Saí de lá e ainda compartilhei o resto do Gatorade com uma amiga que estava sentada no meio fio. Voltei a correr animada, mas logo desanimaria de novo nas 20 voltas que eu dei no mesmo quarteirão do Centro antigo de São Paulo. No início, tava achando ótimo porque não conhecia aquela parte da cidade, então foi um “trote turístico” (rs), mas depois comecei a ficar tonta de tanta volta que dei!

Parei numa quitanda pra comprar mais uma garrafa de água (nesse momento, já havia tomado 2 garrafas de 500ml + os 2 copinhos do início + 90% de uma garrafa de Gatorade e continuava com sede). Meu lado pão dura (que é basicamente a minha pessoa inteira) ama SP porque uma garrafa de água mineral lá custa R$ 2! Aqui no Rio não se compra água por menos de R$ 2,50 nem na Zona Norte! Sem contar que, dependendo do lugar, custa R$ 6…

Mesmo assim, gastei R$ 15 em bebidas durante a São Silvestre porque parei outra vez no início da Brigadeiro pra comprar a 4ª garrafinha da prova numa birosca (R$2 também).

Outa iluminação divina foi ter tomado um gel de carboidrato antes de começar a subir a Brigadeiro. Não fui à nenhuma nutricionista e fiz todos os longões (os poucos que eu fiz) sem nenhuma suplementação específica. Aprendi a lição e já fui na nutri pra ajudar a chegar no próximo objetivo sem tanto sofrimento!

Mas quando vi que os 2km finais de subida interminável estavam chegando, comi o gel que eles deram de brinde no kit da prova. Subi a Brigadeiro feliz, devagar, mas de boa, e cheguei na Paulista achando aqueles 2km pouco. E a inclinação nem era tanta assim (não se iludam: a subida é tensa: mas é que o gel somado às endorfinas não me deixaram ver isso na hora).

Chegar de volta à Paulista foi provavelmente o ponto alto de um ano que não teve tantos altos assim né? :P Terminei a prova muito feliz! Não deu pra comemorar muito porque estava sozinha. Mas me perdi pra voltar pro hotel e isso provavelmente é o suficiente pra mostrar o quanto uma pessoa com um bom senso de direção, num lugar que conhece, estava feliz #SouEstranha

Não sei se vou voltar porque o trauma foi grande. Passei 4 dias bebendo água de litro em litro. No aeroporto, voltando pro Rio no próprio dia 31, pedi 1 frapuccino de mocha VENTI, 1 água de coco e 2 águas minerais no Starbucks. Sim, eu podia pedir 1 água mineral e depois encher a garrafa no bebedouro, mas é porque não fazia sentido beber SÓ 1 garrafa de água. O que são 500ml pra uma pessoa desidratada?

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De qualquer jeito, foi uma das experiências mais malucas e emocionantes da minha vida. Correr 15km sem estar preparada num sol de rachar… Quer dizer, correr a São Silvestre! ;)

E foram muitas lições. A principal delas: faça uma Bucket List e faça as coisas que escreveu nela! Porque fazer uma coisa que você sempre quis fazer é libertador… e traz muita felicidade!

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