Do Recreio até a Pedra da Gávea. E mais um pouco.

No dia 9 de abril, eu acordei de madrugada e comecei a me preparar para correr a minha 1ª meia maratona. Passei filtro solar no corpo inteiro apesar da previsão do tempo ser de chuva do começo ao fim da prova, pois tinha assistido o vídeo do Programa Kilometragem sobre o percurso e, nele, fiquei sabendo que durante os 18km “iniciais” da meia você corre com o sol na sua cara. Sim, o sol nasce lá depois da Pedra da Gávea, e pra lá que você está indo.

Tive dúvidas sobre a camiseta que usaria mas, sabiamente, escolhi a sem manga. Também coloquei viseira e óculos escuros, que uso em todas as corridas durante o dia.

Comi o café da manhã recomendado pela nutricionista, com muito mais comida do que eu conseguia comer, mas tive tempo suficiente para a digestão, no caminho entre a minha casa, na Tijuca, e a largada, no Recreio. Mal saí de casa e já comecei a agradecer ao cara do Kilometragem: tava sol.

Cheguei no Recreio e encontrei alguns colegas da assessoria que não tinham dado a mesma sorte que eu: sem óculos escuros, sem viseira e sem protetor solar. Gente, isso aqui é o Rio de Janeiro: não saiam de casa para correr sem óculos escuros, sem viseira e sem protetor solar. Nunca! Pode estar geando, mas se abrir um centímetro de céu azul entre as nuvens você sentirá falta dos óculos, da viseira e do protetor solar.

Me posicionei na multidão e encontrei gente conhecida pelo Instagram. Nem sei direito o que tava pensando nessa hora. Acho que não tava acreditando. Olhava pro mar à direita e não conseguia nem formular uma frase que tentasse descrever o que estava pensando. Largamos.

Os 10 primeiros quilômetros são na Reserva, que é isso mesmo: uma reserva natural. À esquerda, o mar. À direita, a Reserva. Bem monótono, mas juro que adorei correr ali. Me desliguei de tudo, até porque ainda não tinha começado a parte dramática (em breve) e como a rua estava fechada por causa da corrida NÃO TINHA NINGUÉM, só os corredores. #PAZ

Foi só chegar na Barra que esse cenário mudou. Primeiro começaram a surgir os prédios à esquerda. (Durante quase todo o percurso você corre com a praia à sua direita) Depois vieram os carros. E as pessoas. E quando já estava tudo tumultuado, apareceu minha fascite. Fascite é uma uma dorzinha enjoada na sola do pé, muito comum em corredores. É causada pela inflamação da fascia, uma membrana que fica entre os músculos e a pele, que basicamente se revolta com o fato de vocês estar judiando muito dela ao correr vários quilômetros sem parar. Pois é, cheguei na Barra, minha fascia se revoltou.

Parei. Respirei fundo. Bebi um gole de água. Alonguei o pé. E continuei a correr.

Repeti esse “ritual” umas 3 vezes. Aí parou de doer. Santa endorfina!

No quilômetro 14, mais ou menos, já não sentia nada. E estava morrendo de vontade de ir ao banheiro.

O trauma da desidratação na São Silvestre me fez pegar 2 copinhos de água em cada ponto de hidratação. Tomava um inteiro e guardava o outro. 8 copos de água depois, óbvio que ia dar vontade de ir ao banheiro.

Quando cheguei no Jardim Oceânico, lá estava o namorado, com uma garrafinha de água na mão para me dar. Coitado, mas que recusar né? De qualquer jeito, foi ótimo encontrá-lo ali, mesmo que ele não tenha aceitado meu abraço suado… Depois de 1h30 correndo qualquer incentivo é tipo um Carvalhão te puxando pra frente!

Como uma apaixonada por geografia, admito que a melhor parte da prova é exatamente a mesma parte que pode ser considerada a mais cruel: o fato incontornável de que sol nasce atrás da Pedra da Gávea. Você corre o tempo todo com o sol na sua cara, na altura do seu olho, quase te cegando mesmo, mas, ao mesmo tempo, quase todos os quilômetros são marcados pela Pedra da Gávea se aproximando.

pedra

No início, lá na Reserva, a pedra gigante que separa a Barra de São Conrado parece um pequeno montinho lá na linha do horizonte. Conforme você vai correndo, ela vai se aproximando de você, aumentando de tamanho. E isso é tipo a visão do paraíso. Cada centímetro que a Pedra cresce no horizonte significa que você está mais perto da chegada.

Além de ser uma vista marcante da cidade, chegar até a Pedra da Gávea tinha um significado especial para mim: marcava o final da praia da Barra e o quilômetro 18. Nunca tinha corrido mais do que 18km de uma vez só.

Só queria chegar lá. Sabia que se chegasse ali minimamente “inteira” tava tudo certo.

Quando fiz a curva no fim da praia, me senti realmente invencível: tinha chegado até ali e ia terminar aquilo de qualquer jeito!

Dali em diante foi só alegria: subi o elevado fazendo aviãozinho (o que rendeu fotos impublicáveis!), corri o túnel inteiro gritando (eu gritava de um lado e uma outra louca me respondia do outro! Depois nos encontramos na chegada!), corri a Niemeyer agradecendo cada centímetro e cheguei emocionada em São Conrado.

Ainda recusei mais um copo de água que um pacer da prova me ofereceu (devia estar com uma cara péssima para merecer tanta preocupação!). Na virada para a praia de São Conrado, umas criancinhas estavam incentivando os corredores com um cartaz. Putz, nunca imaginei que me emocionaria tanto com desconhecidos! Mais um Carvalhão.

Mas a parte mais surpreendente veio depois disso. Antes de ver o mar, olhei o relógio de rua no calçadão e não acreditei: ia terminar essa loucura toda me menos de 2h30! Na minha cabeça, se terminasse em 2h30 tava ótimo. Mas sou de humanas e, com endorfina na mente então, perco as contas do Garmin: só vejo números desconexos. Nem o pace eu entendo depois do 15º km! Mas aí vi 9h30 no relógio da rua e pensei: “ué achei que só fosse chegar às 10h”.

Acelerei tudo o que podia (já tava morta) e foi difícil segurar o choro nos últimos metros. Tive que me controlar porque ou eu chorava ou eu respirava e terminava a prova! Não sei como as pessoas conseguem chorar e correr ao mesmo tempo! Quando eu comecei a chorar meu ar acabou! Escolhi cruzar a linha de chegada primeiro.

E aí chorei. Por todas as dores, por todos os sacrifícios e por todas as pessoas em quem eu pensei durante as 2h15 em que eu corri, do Recreio até São Conrado, passando pela Pedra da Gávea.

Logo depois da linha de chegada, reencontrei minha amiga empolgada do túnel, dei os parabéns e fui pegar minha bolsa no guarda-volumes. E quem estava lá? O cara do Kilometragem! Agradeci pelo vídeo que me salvou e acabei dando depoimento para esse vídeo aqui.

Como loucura pouca é bobagem, estou treinando pra próxima meia. Mas agora vou atravessar o Castelo da Cinderella e chegar embaixo da bola do Epcot. Aguardem!

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