2 dias em silêncio

Esse final de semana eu passei 48h em silêncio. Pela 2ª vez na vida.

Pode parecer difícil à 1ª vista, mas juro que achei pouco tempo (das 2 vezes!).

Com a vida mega corrida e agitada que levamos, temos pouco (ou nenhum) tempo de pausa, descanso e de diálogo com Deus. Por isso, fazer um retiro, se isolar de tudo, às vezes é necessário e muito bem-vindo.

Então, lá fui eu novamente pra região serrana, ficar 2 dias sem falar, com outras desconhecidas igualmente caladas, sem sinal de celular, wifi ou televisão. Paz total!

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Sou uma pessoa bem falante, mas tenho uma necessidade enorme de introspecção e de passar um tempo sozinha. Desde que comecei a morar sozinha esses momentos aumentaram, mas quase nunca fico 100% desconectada: fico ouvindo música, vendo vídeo no celular, lendo, fuçando redes sociais… Então esse “tratamento de choque” sempre me faz muito bem!

Só que no retiro, apesar de você estar calada, sempre tem bastante coisa no que pensar: além do que você já tem na cabeça pra resolver, com as meditações, palestras e missas diárias, você vai aprofundando em algumas questões que muitas vezes passam despercebidas na correria do dia a dia. Como está minha vida? Como está minha relação com Deus? E com os outros? É bem raro a gente parar pra pensar nisso enquanto corre pra pegar o metrô, lixa a unha, pensa no que tem que comprar no mercado e manda mensagem pro chefe (ao mesmo tempo).

Não ter nada pra fazer além de acompanhar a programação que já programaram por você (ou não, porque você pode escolher não fazer nada mesmo) tira um peso enorme das costas. Nem pensar no que você vai cozinhar hoje à noite você precisa, porque a comida aparece lá na sala de jantar pra você se servir!

Tive uma experiência engraçada na 2ª noite. Não estava com sono, mas também não tinha mais nada pra fazer. Já tinha acabado a última atividade do dia, já tinha terminado o capítulo do livro que estava lendo, já tinha tomado banho… “Vou dormir né?”, pensei. Mesmo achando que estava sem sono, encostei na cama e dormi imediatamente! Nem preciso dizer que dormi muitíssimo bem nos 2 dias né? Aquele silêncio que só a serra tem, o friozinho na medida, a paz total… E a falta de celular! Que bênção!

Nos acostumamos a ter muita informação, o tempo todo. Passamos, sei lá, 16h por dia conectados, ligados, trabalhando, com o barulho do escritório (e do ar condicionado) à nossa volta, com gente falando, trânsito. A gente se acostuma. Acha até que esse barulho todo faz parte do nosso habitat natural, mas não faz.

E, no meio do silêncio, sem pressa, mais perto de Deus, a gente presta atenção em coisas que passariam despercebidas no dia a dia. Coisas que entenderíamos como coincidência ou até que nos deixariam com raiva. Um exemplo: fui procurar um livro para ler durante o retiro. Queria ler um livro sobre virtudes. Não tinha nenhum livro sobre o tema. Mas tinham uns 50 livros sobre Santa Teresinha. Num dia normal, talvez isso tivesse até me estressado, mas tinha acabado de ser lembrada do amor de Deus por cada um de nós. Entendi a mensagem. “Ok, Deus, você quer que eu leia sobre Santa Teresinha, vou ler”.

Outra coisa interessante é que você acaba “conhecendo” pessoas das quais você nunca ouviu a voz. Porque os únicos momentos de conversa foram a ida e a volta pra casa. Então conversei apenas com quem estava no mesmo carro que eu. As outras 20 meninas são conhecidas das quais nunca escutei a voz! Mas ficaram marcadas no meu coração como companheiras de 2 dias inesquecíveis.

Depois de tanto silêncio, voltei pra casa querendo ter mais silêncio na minha vida. MAIS. E também com alguns propósitos. Escrever mais, por exemplo ;)

Do Recreio até a Pedra da Gávea. E mais um pouco.

No dia 9 de abril, eu acordei de madrugada e comecei a me preparar para correr a minha 1ª meia maratona. Passei filtro solar no corpo inteiro apesar da previsão do tempo ser de chuva do começo ao fim da prova, pois tinha assistido o vídeo do Programa Kilometragem sobre o percurso e, nele, fiquei sabendo que durante os 18km “iniciais” da meia você corre com o sol na sua cara. Sim, o sol nasce lá depois da Pedra da Gávea, e pra lá que você está indo.

Tive dúvidas sobre a camiseta que usaria mas, sabiamente, escolhi a sem manga. Também coloquei viseira e óculos escuros, que uso em todas as corridas durante o dia.

Comi o café da manhã recomendado pela nutricionista, com muito mais comida do que eu conseguia comer, mas tive tempo suficiente para a digestão, no caminho entre a minha casa, na Tijuca, e a largada, no Recreio. Mal saí de casa e já comecei a agradecer ao cara do Kilometragem: tava sol.

Cheguei no Recreio e encontrei alguns colegas da assessoria que não tinham dado a mesma sorte que eu: sem óculos escuros, sem viseira e sem protetor solar. Gente, isso aqui é o Rio de Janeiro: não saiam de casa para correr sem óculos escuros, sem viseira e sem protetor solar. Nunca! Pode estar geando, mas se abrir um centímetro de céu azul entre as nuvens você sentirá falta dos óculos, da viseira e do protetor solar.

Me posicionei na multidão e encontrei gente conhecida pelo Instagram. Nem sei direito o que tava pensando nessa hora. Acho que não tava acreditando. Olhava pro mar à direita e não conseguia nem formular uma frase que tentasse descrever o que estava pensando. Largamos.

Os 10 primeiros quilômetros são na Reserva, que é isso mesmo: uma reserva natural. À esquerda, o mar. À direita, a Reserva. Bem monótono, mas juro que adorei correr ali. Me desliguei de tudo, até porque ainda não tinha começado a parte dramática (em breve) e como a rua estava fechada por causa da corrida NÃO TINHA NINGUÉM, só os corredores. #PAZ

Foi só chegar na Barra que esse cenário mudou. Primeiro começaram a surgir os prédios à esquerda. (Durante quase todo o percurso você corre com a praia à sua direita) Depois vieram os carros. E as pessoas. E quando já estava tudo tumultuado, apareceu minha fascite. Fascite é uma uma dorzinha enjoada na sola do pé, muito comum em corredores. É causada pela inflamação da fascia, uma membrana que fica entre os músculos e a pele, que basicamente se revolta com o fato de vocês estar judiando muito dela ao correr vários quilômetros sem parar. Pois é, cheguei na Barra, minha fascia se revoltou.

Parei. Respirei fundo. Bebi um gole de água. Alonguei o pé. E continuei a correr.

Repeti esse “ritual” umas 3 vezes. Aí parou de doer. Santa endorfina!

No quilômetro 14, mais ou menos, já não sentia nada. E estava morrendo de vontade de ir ao banheiro.

O trauma da desidratação na São Silvestre me fez pegar 2 copinhos de água em cada ponto de hidratação. Tomava um inteiro e guardava o outro. 8 copos de água depois, óbvio que ia dar vontade de ir ao banheiro.

Quando cheguei no Jardim Oceânico, lá estava o namorado, com uma garrafinha de água na mão para me dar. Coitado, mas que recusar né? De qualquer jeito, foi ótimo encontrá-lo ali, mesmo que ele não tenha aceitado meu abraço suado… Depois de 1h30 correndo qualquer incentivo é tipo um Carvalhão te puxando pra frente!

Como uma apaixonada por geografia, admito que a melhor parte da prova é exatamente a mesma parte que pode ser considerada a mais cruel: o fato incontornável de que sol nasce atrás da Pedra da Gávea. Você corre o tempo todo com o sol na sua cara, na altura do seu olho, quase te cegando mesmo, mas, ao mesmo tempo, quase todos os quilômetros são marcados pela Pedra da Gávea se aproximando.

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No início, lá na Reserva, a pedra gigante que separa a Barra de São Conrado parece um pequeno montinho lá na linha do horizonte. Conforme você vai correndo, ela vai se aproximando de você, aumentando de tamanho. E isso é tipo a visão do paraíso. Cada centímetro que a Pedra cresce no horizonte significa que você está mais perto da chegada.

Além de ser uma vista marcante da cidade, chegar até a Pedra da Gávea tinha um significado especial para mim: marcava o final da praia da Barra e o quilômetro 18. Nunca tinha corrido mais do que 18km de uma vez só.

Só queria chegar lá. Sabia que se chegasse ali minimamente “inteira” tava tudo certo.

Quando fiz a curva no fim da praia, me senti realmente invencível: tinha chegado até ali e ia terminar aquilo de qualquer jeito!

Dali em diante foi só alegria: subi o elevado fazendo aviãozinho (o que rendeu fotos impublicáveis!), corri o túnel inteiro gritando (eu gritava de um lado e uma outra louca me respondia do outro! Depois nos encontramos na chegada!), corri a Niemeyer agradecendo cada centímetro e cheguei emocionada em São Conrado.

Ainda recusei mais um copo de água que um pacer da prova me ofereceu (devia estar com uma cara péssima para merecer tanta preocupação!). Na virada para a praia de São Conrado, umas criancinhas estavam incentivando os corredores com um cartaz. Putz, nunca imaginei que me emocionaria tanto com desconhecidos! Mais um Carvalhão.

Mas a parte mais surpreendente veio depois disso. Antes de ver o mar, olhei o relógio de rua no calçadão e não acreditei: ia terminar essa loucura toda me menos de 2h30! Na minha cabeça, se terminasse em 2h30 tava ótimo. Mas sou de humanas e, com endorfina na mente então, perco as contas do Garmin: só vejo números desconexos. Nem o pace eu entendo depois do 15º km! Mas aí vi 9h30 no relógio da rua e pensei: “ué achei que só fosse chegar às 10h”.

Acelerei tudo o que podia (já tava morta) e foi difícil segurar o choro nos últimos metros. Tive que me controlar porque ou eu chorava ou eu respirava e terminava a prova! Não sei como as pessoas conseguem chorar e correr ao mesmo tempo! Quando eu comecei a chorar meu ar acabou! Escolhi cruzar a linha de chegada primeiro.

E aí chorei. Por todas as dores, por todos os sacrifícios e por todas as pessoas em quem eu pensei durante as 2h15 em que eu corri, do Recreio até São Conrado, passando pela Pedra da Gávea.

Logo depois da linha de chegada, reencontrei minha amiga empolgada do túnel, dei os parabéns e fui pegar minha bolsa no guarda-volumes. E quem estava lá? O cara do Kilometragem! Agradeci pelo vídeo que me salvou e acabei dando depoimento para esse vídeo aqui.

Como loucura pouca é bobagem, estou treinando pra próxima meia. Mas agora vou atravessar o Castelo da Cinderella e chegar embaixo da bola do Epcot. Aguardem!

Uma meia maratona: que ideia

Há 7 meses e meio eu corri uma meia maratona.

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E só tive a decência de vir falar sobre isso agora.

Talvez porque esteja treinando pra próxima meia maratona, talvez porque esteja trabalhando muito, talvez porque fico inventando desculpas.

Whatever. Estou aqui pra contar.

Depois de correr a São Silvestre, cheguei à (louca) conclusão de que agora deveria correr uma meia maratona (21km). Não me pergunte como cheguei à essa conclusão, até porque não teve nada de muito racional. Pensei “já corri 15km, vamos correr 21km”. Pesquisei no Google sobre a Meia Maratona do Rio e descobri que as inscrições já estavam esgotadas. Mas tinha vaga pra uma tal de Rio City Half Marathon. “Isso aí mesmo” e fui preenchendo os dados do cartão de crédito.

O que essa decisão não considerou foi o tamanho do esforço para chegar lá. Porque, antes de correr do Recreio até São Conrado, tinha muito treino pra fazer! E se tem uma coisa que eu aprendi com a São Silvestre foi que não dá para pular treino. Nem comer qualquer coisa, sem seguir orientação de nutricionista. Já tinha visto as (péssimas) consequências que isso traz.

Pois bem, jurei que não ia faltar nenhum treino e marquei consulta com uma amiga minha de colégio que agora é nutricionista esportiva.

Sobre a parte dos treinos, preciso confessar que tive até orgulho de mim mesma. Foram 3 meses entregando 99% dos treinos obrigatórios (minha planilha normalmente tem 3 treinos obrigatórios e 1 opcional por semana). Só faltei 1 treino de tiro e 1 longão porque tava (de novo) com fascite. Já tinha tido fascite logo que comecei a correr e a recomendação é repouso até melhorar. Segui certinho, coloquei gelo, fui na fisioterapia e não precisei faltar mais nada além desses 2 treinos.

A parte da comida é sempre a mais difícil né? Mas só de seguir as “macro” orientações da nutri, incluindo pré, intra e pós treino cumpridos à risca durante todo o período, posso dizer que senti muita diferença! Não fiquei doente. Tava mega cansada, mas conseguia dar conta de entregar todos os treinos, aparecer para trabalhar e, inclusive, trabalhar de verdade.

Uma coisa que me ajudou bastante com a alimentação foi a quaresma. Prometi ficar os 40 dias antes da Páscoa sem comer doces. Achei que ia ser moleza, mas até que sofri um bocado, principalmente no início. Mas isso é assunto para outro post. O que importa aqui é que a quaresma me ajudou a seguir mais certinho a minha dieta. Aguardava ansiosamente o momento de comer salada de fruta com granola, meu principal deleite gastronômico durante esse período!

O mais difícil foi fazer os longões (treinos mais longos, normalmente feitos nos finais de semana). Acordar cedo no domingo pra correr foi bem difícil, mas era a minha única opção porque estou fazendo pós aos sábados! Sim, faço tudo ao mesmo tempo e, não, não tenho juízo =P

Sem contar que correr intermináveis quilômetros sozinha nem sempre é fácil. Tinham domingos em que tudo era lindo, ia cantarolando, vendo a paisagem, me achando a corredora. Mas também tinha dia que eu me sentia uma lesma rastejante (e não é piada), parecia que não ia acabar nunca! Principalmente nos treinos longos que corri no Maracanã, cuja volta tem 2 km. Ou seja, me sentia um hamster correndo naquela rodinha, dando 6, 8 voltas em torno do estádio.

Quando fiz o último longo, de 18km, me sentia invencível. Obviamente foi difícil pra caraca terminar, corri super devagar, mas pensava: “já corri 18km, agora vou correr esses 21km de qualquer jeito”. Mas o pior não é o tamanho do último treino: é o acúmulo de todos os treinos juntos!

Durante o período de preparação, meu corpo ficou muito cansado. Levantava da cama me arrastando, no automático mesmo. Basicamente não tive vida. Treinava, trabalhava, comia e dormia. Tomava banho também né? O namorado reclamou horrores porque eu não queria fazer nada no sábado à noite e acordava cedo no domingo de manhã. Foi tenso, mas sobrevivemos.

Depois de 3 meses comendo tudo contadinho, juro que sofri de verdade com o tal do carb load nos 3 dias antes da prova. Não conseguia dar conta de comer tudo o que tinha que comer, algo realmente inédito na minha vida!

Na sexta-feira antes da prova (que foi num domingo) me dei conta de que nem sabia direito que percurso era esse que ia de um ponto a outro da Zona Oeste do Rio de Janeiro. E isso tinha sido um outro problema na São Silvestre. Entrei no site da corrida e cliquei no link do vídeo do percurso, que tinha 30 segundos. Felizmente, o vídeo seguinte era do Programa Kilometragem, bem mais detalhado, e começou a passar em seguida. Assisti. Esse vídeo me salvou! Explico em breve.

No dia da prova, foi o namorado que madrugou para me levar de carro pro Recreio (muito amor envolvido). Ainda faltavam 2h15 pra eu virar meia maratonista. Mas esse texto já ficou muito longo e vamos deixar esses 135 minutos para o próximo post.

Desafio Minimalista #4: Selecione suas roupas

Desabafo: se eu não tivesse postado os 3 primeiros itens do Desafio Minimalista, não saberia nem onde eu tinha parado.

Mas posso dizer que o item nº 4 tem habitado minha vida nos últimos tempos. Talvez porque não consiga terminá-lo. Tô empacada mesmo.

Há algum tempo atrás, li o livro A Mágica da Arrumação, da Marie Kondo. Nele, Marie, uma japonesa especialista em arrumação, explica o seu jeito de arrumar a casa (e a vida): o método KonMari.

Super me identifiquei e concordei com tudo o que a Marie propunha. Até porque sempre fui adepta da eliminação, o 1º passo do seu método. E até usei a sua técnica para escolher que peças manter e que peças guardar com sucesso.

E essa é a parte mais controversa do método: você tem que segurar cada peça que possui e se perguntar: “Isso me traz alegria?” Se o objeto te dá alegria, guarde. Se não, elimine.

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Pra mim, isso faz todo o sentido é o que me incentiva a tentar ser minimalista. Nunca vi sentido em ter muita coisa. Nem em morar em uma casa atolada de troço.

Então, nesse sentido, posso dizer que o objetivo 4 “Selecione suas roupas” está completo. Ou não. Porque eu sempre acho que ainda posso eliminar mais coisas…

E sempre paro no meio! Nunca consigo tempo para terminar a arrumação.

Sim, eu sei que é totalmente nada a ver usar a desculpa de “não tenho tempo”, mas é essa minha melhor desculpa atualmente.

Nunca passo da parte do descarte para a parte de escolher um lugar para cada coisa e depois guardá-las do jeito que a Marie Kondo ensina.

Aí, esse ano, eu comecei a ler o 2º livro dela: Isso me traz alegria. Por incrível que pareça, aprender a dobrar as roupas do jeito certo me fez ter mais facilidade de aplicar o método do que completar a eliminação. Talvez o fato de começar a ver resultados concretos tenha me ajudado a querer persistir nisso.

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Enfim, acho ainda não terminei 100% esse item, mas juro que é um dos meus principais objetivos atualmente. E já vi que é um processo. Então bora continuar!

Sobre o Caminho da minha Artista

Quando fui convidada pela minha amiga Luciana a participar de um círculo de leitura do livro “Guia Prático para a Criatividade”, carinhosamente chamado de “O Caminho do Artista” (porque esse é o nome original em inglês: “The Artist Way”), disse sim sem piscar. Já havia ouvido ela e outros amigos comentarem sobre o livro e estava super curiosa! Mas, sinceramente, não achava que eu era artista ou que tinha algum dom ou talento artístico ou que faria arte ou nada relacionado a isso. Só achei que ia ser legal. Ponto.

Em um dos primeiros encontros, falei abertamente com o grupo que não tinha nenhum talento artístico, pois não sabia desenhar nem tinha dom musical. Na verdade, não sei nem recortar direito. Me lembro claramente da cara do Lu dizendo: “Ah tá, veremos”. Algumas semanas depois, eu já tinha certeza que sou artista, que tenho dons artísticos e que eu estava no lugar certo.

Na verdade, nunca duvidei de que estava no lugar certo. Cada linha que a gente lia do livro da Julia Cameron tocava profundamente algum cantinho da minha alma. Sabe quando você lê algo e sente que foi escrito pra você? Então, o livro inteiro foi escrito pra mim. E tenho certeza que foi escrito para muitas outras pessoas. Via isso nos olhos dos meus companheiros iniciais e vejo agora nos olhos das amigas que eu convidei para fazer parte do meu 2º grupo, o que eu estou conduzindo. Sim, porque, desde o 1º dia, quando a Lu disse que a ideia era que cada grupo gerasse outros grupos, eu tive certeza de que formaria um círculo com as minhas amigas. Sabia até quem seriam as convidadas. Nem todas que convidei aceitaram, mas algumas artistas me disseram sim e seguem comigo nessa jornada.

Nunca pensei o que teria que fazer para ter um grupo. Só tive certeza que faria um. “Ordens unidas”, como diz a Julia? Acho que sim. Só ouvi e segui.

Muitas ideias do livro simplesmente me pareciam tão certas que não segui-las seria como ir contra mim mesma. Em muitos momentos, me joguei. Saltei e, pasmem, a rede sempre apareceu. Pedi e fui atendida, das maneiras mais estranhas, completas, improváveis e rápidas.

Da descrença em relação a mim mesma à total confiança na minha criatividade, tiveram alguns “turning points”. As Páginas Matinais, com certeza, foram o instrumento mais certeiro que já experimentei na vida. Escrevi 3 páginas quase todos os dias das 12 semanas do 1º grupo e atualmente escrevo menos do que gostaria. Sinto falta quando não escrevo.

Mas talvez o maior turning point tenha sido a lista de 20 coisas que eu gosto de fazer. Fiz essa lista no meio da minha viagem de férias e concluí que havia feito quase tudo da lista na semana anterior. Só que, antes dessas férias, tinham coisas da lista que eu não fazia há anos! Coisas de graça! Coisas que eu amo! Como podemos passar ANOS sem fazer as coisas que amamos? Como podemos concluir que amamos fazer algo e não nos comprometer a fazer isso, sempre, todo dia, diversas vezes por dia, o máximo que pudermos?

Em algum momento, depois de escrever incontáveis páginas além das 3 Páginas Matinais durante essas férias, cheguei à conclusão de que sou escritora. Que louco né? Por que nunca havia me denominado assim antes? Provavelmente porque nunca tinha escavado o suficiente. Nem confiado o suficiente.

Ainda tenho dificuldades de confiar em Deus e em mim. Mas estou melhorando. Tudo o que vivi desde o final do ano passado, quando entrei nesse caminho, só me indicam que estou no rumo certo. A recuperação é lenta e continua. Ter amigos nesse processo ajuda bastante.

Descobri, escrevendo as Páginas Matinais, que sempre escrevi sem pensar. Acho que nem quando fiz vestibular “planejei” minhas redações. Se sei o que quero dizer, começo a escrever e pronto: fiz o texto. E, a partir da 3ª página, você para de reclamar e culpar os outros e passa a formular hipóteses e tomar decisões. E, quando você chega a essas conclusões, depois de 3 ou mais páginas, não há quem te convença do contrário: você está certo do rumo que tomou. (e se não estiver 100% convencido, irá escrever mais algumas páginas a respeito até ter certeza)

As sincronicidades e as portas sempre estiveram por aí. Você que nunca tinha tomado consciência delas. Porque, quando você começa a reparar nelas, elas são muito reais para serem ignoradas. Muito do que li no livro eu já sabia. Julia só confirmava as minhas certezas, mesmo que eu nunca tivesse tido condição de verbalizá-las ou formular uma ideia a respeito. Eram certezas adormecidas, mas que, uma vez lidas, experienciadas e vividas, se tornaram parte de mim.

Acho que essa é a melhor definição desse caminho: virou parte de mim. Me vejo subindo a montanha em espiral que a Julia descreve. Estou aqui, na montanha, escavando ossos, seguindo a direção que me indicam, caminhando, às vezes correndo, apreciando a paisagem, aprendendo. Tenho certeza disso. Ninguém me explicou melhor o que eu estava passando do que ela. Julia, minha amiga.

Com o decorrer do livro, vamos virando íntimos da autora. E do caminho. E de nós mesmos.

Foi maravilhoso poder descobrir quem é a minha artista, a minha criança interior. Sou eu mesma, mas em termos muito mais divertidos do que a realidade da vida adulta comporta. Na verdade, penso que sempre soube quem era a minha artista, mas nunca havia tido tantas chances de conviver com ela a ponto de saber defini-la exatamente. Ela gosta de mato. De cães e de montanhas. Odeia o Saara e, apesar de gostar de andar descalça e comer com a mão, curte coisas fofas e fazer as unhas. Ela sempre esteve aqui e eu sempre tive certeza dessas coisas, mas foram os exercícios, tarefas e ferramentas do “Guia” que me deixaram cara a cara com ela.

Tenho um quadro com uma caricatura minha aos 8 anos de idade. De tempos em tempos, me pegava olhando para mim mesma, naquele quadro, e pensando o que “ela” (eu) acharia de alguma coisa que estava acontecendo no momento. Tinha dias que olhava pra ela e me achava super parecida com ela. Tinha dias que achava que não tínhamos mais nada a ver. Estava procurando a minha artista e não sabia. Julia colocou em palavras a minha busca. Agora que achei minha artista (eu mesma), faço questão de andar de mãos dadas com ela 24h por dia.

Apesar disso, os encontros marcados fazem toda a diferença e enchem o meu poço como muitas viagens de férias não fariam. E em 1 ou 2 horas! E, a maioria das vezes, sem gastar nenhum dinheiro.

No meio do caminho, me dei conta do que eu realmente queria fazer da vida. E, ao mesmo tempo que parecia que nada estava mudando, tudo mudou.

Se eu posso compartilhar alguma conclusão dessa caminhada, é que vale a pena fazê-la. Todo mundo, até os mais descrentes, até os menos “artísticos”, podem descobrir coisas incríveis sobre si mesmos (e sobre a vida) se decidirem trilhar esse caminho. Julia é uma ótima professora e cada linha escrita nas Páginas Matinais vale a pena. Cada sonho que você desenterra aponta um caminho. Então, escreva. Encontre seu artista. Encha seu poço. Faça.

Como começar um Grupo Criativo

Por Julia Cameron

Traduzido de: http://juliacameronlive.com/basic-tools/creative-clusters/

Preciso de permissão para “ensinar” O Caminho do Artista – Guia Prático para a Criatividade?

Não. Qualquer um pode realizar o curso ou iniciar um grupo criativo, seguindo as orientações do livro e as diretrizes abaixo. Acredito que a recuperação criativa é um processo coletivo não hierárquico. Não há certificação para ensinar O Caminho do Artista.

Diretrizes:

  1. Siga um processo de 12 Semanas, com encontros semanais de 2 ou 3 horas.

As Páginas Matinais e os Encontros com o Artista são exigidos de todos no grupo, incluindo os facilitadores! Os exercícios são feitos em ordem e em grupo, com todos, incluindo o facilitador, respondendo as questões e depois compartilhando as respostas em grupo, um capítulo por semana. Não compartilhe suas páginas matinais com o grupo ou com qualquer outra pessoa. Não releia suas páginas parciais até o fim do processo.

  1. Fuja de Gurus.

Se existe um mensageiro, é o trabalho em si, como um coletivo compostos por todos que participam do curso. Cada pessoa é igualmente parte do grupo, sem distinções. Por mais que exista um facilitador conduzindo esse caminho de 12 semanas, esses facilitadores precisam estar preparados para compartilhar seu material e assumir seus próprios riscos criativos. É um diálogo, não um monólogo – um processo igualitário em grupo, sem hierarquias.

  1. Ouça.

Cada um de nós recebe o que precisa do grupo ao compartilhar nosso material e ouvir os outros. Não precisamos comentar o que o outro falou para ajudá-lo. Precisamos parar de querer “consertar” os outros. Cada grupo compõe uma “música” própria de sua recuperação criativa. A música de cada grupo é única – como a de uma família de baleias, iniciando e ecoando o som para informar suas posições. Ao ouvir, não comente indevidamente o que está sendo falado. O círculo, como forma, é muito importante. Nossa intenção é testemunhar, não controlar. Ao compartilhar os exercícios, pode ser interessante formar grupos menores.

  1. Respeite os outros.

Esteja certo que respeito e compaixão são oferecidos igualmente por todos os membros. Cada pessoa deve ser capaz de falar de suas próprias cicatrizes e sonhos. Ninguém deve ser “consertado” pelos outros membros do grupo. Esse é um processo interno muito profundo e poderoso. Não há jeito certo de fazê-lo. Amor é importante. Seja gentil com si mesmo. Seja gentil com os outros.

  1. Espere mudanças no formato do grupo

Muitas pessoas irão completar o processo de 12 semanas. Outras não. Frequentemente há um período de rebeldia após as 12 semanas, com pessoas retornando ao curso depois. Quando isso acontece, eles continuam percebendo o desenrolar do processo, seja um ano, alguns anos ou muitos anos depois. Muitos grupos se afastam por volta das semanas 8 a 10, devido ao sentimento de perda associado ao fim do grupo. Encarem a verdade como grupo, talvez isso ajude a manterem-se unidos.

  1. Seja autônomo.

Você não pode controlar seu próprio processo, muito menos o dos outros. Saiba que você ficará rebelde ocasionalmente – algumas vezes, você não irá querer fazer suas Páginas Matinais ou os exercícios e tarefas. A recaída é normal. Você não vai conseguir fazer esse processo perfeitamente, então relaxe, seja gentil com si mesmo a segure seu chapéu. Mesmo quando você sentir que nada está funcionando, você estará mudando a uma velocidade muito grande. Essa mudança é um aprofundamento na sua própria intuição, no seu self criativo. A estrutura do curso é feita para atravessar com segurança a ponte em direção a novos reinos de consciência espiritual e criativa.

  1. Ame-se.

Se o facilitador parece “errado” para você, mude de grupo ou comece um grupo próprio. Busque continuamente sua própria orientação interna em vez de orientação externa. Você está à procura de uma relação de artista para artista com o Grande Criador. Mantenha os gurus longe. Você tem suas próprias respostas dentro de você.

O Caminho do Artista e todos os meus outros livros são o resultado de 40 anos de prática artística. Eles são livros experimentais destinados a ensinar as pessoas a transformarem suas vidas através de atos de criatividade. Todos os livros e grupos criativos devem ser praticados através de atos de criatividade, não como teoria. É minha crença e experiência como professora que todos nós somos saudáveis o suficiente para praticar a criatividade.  Não é um empreendimento perigoso que exija facilitadores treinados. É nosso direito de nascença como seres humanos e algo que podemos fazer gentilmente e coletivamente.

Criatividade é como respirar. Ajuda externa pode ser útil, mas nós mesmos fazemos o processo. Grupos criativos, onde nos reunimos com nossos pares para desenvolver nossa força, devem ser considerados como encontros tribais, onde seres criativos se reúnem, celebram e atualizam o poder criativo que percorre todos nós.

 

Fonte: http://juliacameronlive.com/basic-tools/creative-clusters/

 

Um Guia do Guia – O que você precisa fazer durante O Caminho do Artista

Logo no início do Guia Prático para a Criatividade, Julia Cameron nos dá algumas “missões”. Esse post tem como objetivo resumir o que devemos fazer durante as 12 semanas desse caminho…

Princípio Básicos

São 10 princípios que devem ser lidos TODOS OS DIAS durante as 12 semanas:

PRINCÍPIOS BÁSICOS

  1. A criatividade é a ordem natural da vida. Vida é energia: pura energia criativa.
  2. Existe uma força criativa subjacente que habita em nós e infunde tudo o que é vida – inclusive nós mesmos
  3. Quando nos abrimos para nossa criatividade, nos abrimos para a criatividade do criador dentro de nós e de nossas vidas.
  4. Nós próprios somos criações. E, em contrapartida, fomos feitos para dar continuidade à criatividade sendo criativos.
  5. A criatividade é uma dádiva que nos foi dada por Deus. Usar nossa criatividade é nossa dádiva a Deus.
  6. A recusa de ser criativo é um ato de vontade própria e vai de encontro a nossa verdadeira natureza.
  7. Quando nos abrimos à exploração de nossa criatividade, nos abrimos à Deus: direção sistematicamente eficaz.
  8. Quando abrimos nosso canal criativo ao criador, podemos esperar muitas mudanças poderosas, embora sutis.
  9. É seguro abrir nosso ser à criatividade cada vez maior.
  10. Nossos sonhos e anseios criativos vem de uma fonte divina. À medida que caminhamos em direção ao nosso sonho, caminhamos em direção à nossa divindade.

Páginas Matinais

São 3 páginas escritas À MÃO, sem censura, TODOS OS DIAS, durante as 12 semanas, preferencialmente, assim que você acordar. Não pense. Só escreva. Qualquer coisa. O que estiver te incomodando. O que estiver te alegrando. Tudo. Coloque no papel. E não leia o que você já escreveu!

Encontro com o Artista

Uma hora semanal para encontrar com seu artista interior. Sozinhos. Como seu artista está dentro de você, sim, é pra ficar 1 hora sozinho. Mas faça coisas legais! Lembre-se: é um encontro. Marque na agenda, planeje. E compareça! Uma vez por semana, durante 12 semanas.

Essas 3 atividades devem ser feitas durante todo o processo do Caminho do Artista, enquanto seu grupo estiver se reunindo semanalmente para ler os capítulos e fazer os exercícios propostos. Os encontros com seu grupo criativo são uma oportunidade para compartilhar (NÃO AS SUAS PÁGINAS MATINAIS MAS) como está sendo o processo para você, como está se sentindo lendo os princípios diariamente, escrevendo suas páginas e encontrando seu artista.

Semana 12: Recuperando a Noção de Fé

Criatividade exige fé. Exige que confiemos. Temos medo de ser criativos porque achamos melhor manter o controle a usar nossa criatividade. Mas a verdade é que nós sabemos. Todos conhecemos nossos sonhos. E o primeiro passo para realiza-los pode ser simplesmente afirma-los. Assim como afirmar que nossa fé e nossa confiança em nosso artista e em Deus.

Julia nos faz ver que nosso sonho mais verdadeiro é sempre o desejo de Deus para nós. Quando nos comprometemos em ser verdadeiros com nós mesmos, o universo nos apoia. E todas as portas são abertas. Até as que não existiam. Há um caminho para cada um de nós. Confie no seu caminho.

Normalmente pensamos, que a criatividade está associada à luz, como a lâmpada que se acende quando temos uma ideia. Só que, antes da luz acender, normalmente vivemos um período de escuridão. Faz parte do processo. Devemos aceitar esse momento de “trevas” que precede a luz. Porque ele é necessário para que surjam as ideias. Não devemos arrancá-las do pé antes de estarem maduras nem tentar pari-las quando ainda estão prematuras.

O mistério é a essência da criatividade. Como canais criativos, precisamos confiar na escuridão. É dela que surgirão nossas ideias. Para deixar nossas ideias crescer, como pão, é importante meditar no papel: nas Páginas Matinais. Refinar nossas ideias. Dá-las fermento. E tempo para o fermento agir. Deixe suas ideias no mistério e na escuridão. Deixe que elas amadureçam. Confie até que, um dia, a lâmpada se acenderá.

Pode ser difícil cultivar uma criatividade que não seja “útil” à nossa profissão. Devemos reexaminar nossa definição de criatividade para incluir dentro dela coisas que chamávamos de passatempos. Em uma vida criativa, passatempos são tão essenciais como se alimentar! Realizar tarefas mecânicas e manuais, como costura e jardinagem, são uma forma de meditação. Essas atividades também nos tornam mais humildes: ao realiza-las nos libertamos do nosso ego e nos conectamos com Deus. Muitas vezes, a partir de atividades assim, resolvemos problemas ou temos insights e ideias brilhantes.

Por isso, precisamos reaprender a brincar.  E a nos levar menos a sério. E parar de escrever arte com um A maiúsculo.

Ao utilizarmos as ferramentas do livro, especialmente as Páginas Matinais e os Encontros com o Artista, vamos nos reencontrando com nossa criatividade esquecida. Lembramos dos nossos sonhos e do que gostávamos de fazer com 6 anos. Quando escrevemos, escavamos nosso interior. Recolhemos ossos. Descobrimos, mais uma vez, que somos seres criativos. Fomos feitos para criar.

“Por mais grisalhos, controlados e sem sonhos que tentemos nos tornar, o fogo de nossos sonhos não permanecerá oculto”, lembra Julia. “A vida é feita para ser um Encontro com o Artista. É por isso que fomos criados”.

Para completar nossa jornada, Julia nos adverte a fugirmos do “teste”: sabe aquele ex problemático que liga na véspera do seu casamento com o homem da sua vida? Então, nem atenda. Mantenha-se longe dos Desmancha-Prazeres. Proteja seu artista interior, pois ele é uma criança, lembra? Aprenda a seguir o seu próprio conselho em vez de pedir a opinião dos outros sempre. E conte apenas com os aliados, ao mesmo tempo em que identifica os “inimigos” para se manter longe deles. Não se deixe enganar pelas boas intenções. Estabeleça seus limites. E, quando necessário, corra o mais rápido que puder.

Semana 11: Recuperando a Noção de Autonomia

Essa semana, Julia nos pede para aceitarmos que somos artistas. E que, com isso, precisamos aceitar o nosso fluxo criativo instável e nem sempre fácil de entender. Precisamos experimentar para saber como funcionamos melhor.

Além disso, nossa credibilidade como artistas não está na fama ou no dinheiro que ganhamos; está em nós mesmos e no nosso trabalho. Criamos o que quer ser criado. Criamos o que precisamos criar. Se ganharemos dinheiro com isso é uma outra história…

Nosso artista interior, como já sabemos, é uma criança e precisa de um pouco de liberdade. Se ajudarmos nossa criança, ela nos ajudará quando precisarmos. Precisamos nos proteger e nos cercar de pessoas que alimentam nosso artista, pois se nossa vida fica estúpida, nosso trabalho também ficará. Nosso respeito próprio vem do nosso trabalho. Independente do trabalhar estar finalizado ou não. Apenas trabalhamos e nos sentimos bem com isso.

Se não criarmos, ficamos mal humorados. Se ficarmos estagnados nosso trabalho refletirá isso porque nosso trabalho reflete a nossa vida. Nos matamos aos pouquinhos quando não alimentamos nossa criança interior. Quanto mais alimento minha criança artista, mais adulto sou capaz de parecer.

Se permitimos que nos maltratem e intimidem para que pareçamos mais normais ou mais gentis, podemos até ganhar um pouco mais de simpatia desse grupo de pessoas que nos obriga a isso, mas nos detestaremos. E aí, nos maltrataremos e maltrataremos os outros também. Não vai ser legal.

Normalmente nossas sabotagens criativas estão relacionadas a comportamentos abusivos em relação à comida, ao sexo, às drogas, ao humor. Investigue essas relações na sua vida.

A criatividade é o nosso oxigênio. Se eliminarem nossa criatividade, nos asfixiamos. E daí nasce uma verdadeira raiva. Reagimos como se estivéssemos lutando por nossas vidas. E estamos. Somos mais felizes criando. Então, pelo amor de Deus, se permita criar!

Cada trabalho criativo concluído nos leva a uma pergunta: “E agora? O que fazer em seguida?”. As novas explorações nos mantém vivos. Se fugirmos delas, ficaremos estagnados. Precisamos ter a coragem de sermos iniciantes novamente e recomeçar, sempre. Por isso, não podemos “hipotecar” nosso futuro e fazer apenas o que nos dá retorno comercial. Precisamos nos arriscar, aprender coisas novas.

Grande parte dos bloqueios existem porque somos cerebrais demais. Precisamos sair do trabalho mental e entrar no corpo. Para isso, Julia sugere que pratiquemos esportes. Se você gosta de esportes, ótimo! Use-o como meditação. Se você não gosta, Julia sugere que faça caminhadas. Apenas ande e observe. Se desligue se movimentando. Quem corre ou pedala ou nada ou pratica qualquer outro esporte sabe como somos transportados para um outro lugar quando nos empenhamos apenas no movimento que temos que fazer em seguida. Só isso já nos torna mais capazes de lidarmos com os pequenos problemas do dia a dia. E também gera insights criativos maravilhosos! Experimente.

Porque a criatividade é uma ação espiritual, Julia nos pede para criar um “altar” para nosso artista. Qualquer cantinho serve. Estabeleça um pedacinho da sua casa que seja só seu e encha de coisas que fazem o seu artista feliz. Lembre-se: seu artista é uma criança pequena que se diverte com coisas bobas. Divirta-o.

Semana 10: Recuperando a Noção de Autoproteção

Já sabemos que nossa criatividade é uma questão espiritual. Quando nos sentimos seguros de quem somos e do que estamos fazendo, a energia criativa flui através de nós. Mas quando resistimos a essa energia, nos sentimos inseguros e com medo de perder o controle. Daí pisamos nos nossos freios e bloqueamos a nossa criatividade.

Com o passar dos anos, vamos desenvolvendo diversos mecanismos de bloqueios criativos. Um deles é a comida. Comemos demais, comemos mal, comemos na hora errada. Usamos os alimentos para bloquear a energia e a mudança: álcool, sorvete, batata frita.

Outro mecanismo de bloqueio é o trabalho. Trabalhamos tanto que não temos meia hora no dia para caminhar, desenhar, assistir desenho animado.  Estamos sempre “ocupadíssimos”, com diversos projetos que nos impedem de fazer exatamente o que precisamos fazer.

O amor e o sexo também podem ser usados como bloqueio. E junto com a comida e o trabalho, são todos ótimos! Mas é o seu uso abusivo que nos traz problemas. Ao reconhecer o nosso artista, passamos a ter consciência do uso que fazemos desses elementos quando desejamos interromper o nosso fluxo de criatividade. Nós bloqueamos nosso fluxo propositalmente quando começamos a sentir o nosso verdadeiro potencial.

Todos os nossos bloqueios aliviam o medo. O medo de mudar. De nos tornarmos quem realmente somos. Sempre que começamos a sentir o vazio interior que ocorre instantes antes da mudança, apelamos para a nossa droga preferida: Comida? Trabalho? Sexo? Drogas ilícitas?

Quando escolhemos um dos nossos bloqueios, estamos vivendo a nossa curva criativa em U: viramos as costas para nós mesmos. Em vez de ouvir a nossa intuição, confiar em nós mesmos, dançar, pintar, escrever. Por isso, bloqueios são uma questão de fé. De falta de fé.

Preferimos ficar com o nosso eu tristinho e infeliz, mas conhecido, a nos lançarmos em nossa arte. Se não estivermos bloqueados algo assustador pode acontecer: talvez a gente possa até ser feliz! Isso é apavorante!

Identificar nossos mecanismos de bloqueio ajuda a não cair mais neles. A partir daí, devemos usar a nossa ansiedade como combustível para a nossa arte.

Julia nos apresenta um Teste do Vício do Trabalho. Porque trabalhar demais a ponto de não ter tempo para ser nós mesmos é um vício que desenvolvemos para bloquear nosso artista.

Para nos protegermos desse vício, ela recomenda que estabeleçamos uma Linha de Base, um limite. Estabeleça até onde você vai. E a partir de onde sai de campo. Não trabalhar em casa? Não trabalhar depois das 19h? Não trabalhar aos fins de semana? Estabeleça o seu limite.

Julia também nos lembra que períodos de “seca artística” são normais. Precisamos apenas continuar escrevendo as Páginas Matinais e enchendo nosso poço até a seca passar. Ela também nos alerta sobre os perigos da fama, quando paramos de fazer o nosso trabalho por nós e começamos a fazer as coisas apenas para satisfazer os outros. Outro problema é a competição. Nos comparamos com o desempenho dos outros em vez de nos concentrarmos em nosso próprio trabalho.

Para criar, precisamos entrar dentro de nós mesmos e seguir a direção que nosso artista nos indica. Não devemos depender de aprovação externa. Fazer o trabalho é a vitória mais importante.