Business as unusual

Se tem uma empresa foda nesse mundo, essa empresa é a Patagonia. E por quê? Porque o dono é foda!

Não adianta. Empresas são feitas de pessoas. Então, são as pessoas que trabalham na empresa que contam.

empregados da patagonia

E o dono. E o Yvon Chouinard é foda!

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Abaixo um pouco do que esse gênio do “businnes as unusual” pensa:

“A missão da Patagônia é: ‘usar o mundo dos negócios para inspirar e implementar soluções para a crise ambiental’. ”

“Patagonia existe para pôr em prática todas as coisas que pessoas inteligentes estão dizendo para fazermos, não apenas para salvar o planeta, mas para salvar também a economia.”

“Se você quer mudar o governo, você tem que mudar as corporações, e para isso precisará mudar os consumidores. Opa, o consumidor? Ué, sou eu. Sou eu que tenho que mudar.”

“Não produzimos Kits de Relações públicas ou festas em shows comerciais. Acreditamos que o melhor jeito de conseguir publicidade é dizer algo importante de ser dito.”

“É bom para os negócios. Pense como um custo de marketing […] “Ok, você vende vinhos por $10. Cobre $10,10. Ninguém deixará de comprar seu vinho porque custa por causa de $0,10. Na verdade, você pode adicionar só $0,6 pois 40% das doações você pode abater impostos”. Se em um posto de gasolina o frentista diz “obrigado por abastecer, 6 centavos irão para o meio-ambiente, aposto que muita gente mudaria seu caminho para pôr esta gasolina. ”

“A Wal-mart me perguntou qual é a coisa mais importante que eles poderiam fazer, e eu disse ‘Assuma a responsabilidade pelo seu produto, do nascimento ao fim’. ”

Trechos do livro Lições de um Empresário Rebelde (o nome em inglês é mil vezes melhor: Let My People Go Surf) tirados do post Sustentabilidade Não Existe do blog do Nicholas Gimenes.

let my people go surfing

Tive o privilégio de assistir o Rick Ridgeway, vice-presidente de Meio Ambiente da Patagonia, falar no encerramento do SBRio do ano passado. O nome da palestra dele diz tudo: “A EMPRESA MAIS LEGAL DO MUNDO” :)

Veja a palestra completa:

 

Por mais empresas legais como a Patagonia no mundo \o/

 

Laudato Si

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Além de comida e produtos de beleza, eu também tenho um grande interesse (inclusive profissional) pelo tema da sustentabilidade. E como esse blog é meu e eu posto o que quiser :P resolvi comentar um pouco sobre a nova Encíclica divulgada pelo Vaticano semana passada. Bem, são 200 páginas, então só terminei de ler agora (graças ao Kindle e ao tempo que passo no metrô).

Gostaria de começar, citando uma das frases mais lindas dos últimos tempos: “Culpar o aumento da população e não o consumismo extremo é um modo de não enfrentar os problemas”. APLAUSOS. FOGOS. Por favor, se você ainda não se convenceu de que temos que mudar as coisas em vez de ficar reclamando e achando desculpa, pode desistir de ler todo o resto desse blog.

O Papa cita no início do texto diversos outros documentos religiosos publicados anteriormente e, claro, o exemplo de São Francisco. Ao falar sobre seu xará, ele lembra que a pobreza e a austeridade com que São Francisco vivia simbolizava “uma renúncia a fazer da realidade um mero objeto de uso e domínio”. Estamos mesmo precisando aprender muito com ele…

Segundo o Francisco atual, o objetivo da Encíclica é “formar uma dolorosa consciência, ousar transformar em sofrimento pessoal aquilo que acontece ao mundo e, assim, reconhecer a contribuição que cada um lhe pode dar” <3

Mas para conseguir isso, temos enfrentar a cultura do relativismo, que “é a mesma doença que leva uma pessoa a explorar o seu próximo e tratá-lo como um mero objeto”. As pessoas simplesmente pararam de se sentir culpadas pelo mal que fazem aos outros, quanto mais o mal que fazem aos animais e plantas e ecossistemas. Mas não é preciso nem ser religioso para que o que você faz volta para você. Pois, já diria o antecessor de Francisco, Papa Bento XVI, “o livro da natureza é uno e indivisível”, apesar de todas as caixinhas que ensinam a gente na escola (e na faculdade e no trabalho).

Uma das minhas partes preferidas da Encíclica é: “A estratégia de compra e venda de ‘créditos de carbono’ pode dar origem a uma nova forma de especulação, e isso não serviria para reduzir a emissão global de gases poluentes”, simplesmente porque eu também sou contra essa maluquice de ‘créditos de carbono’. Achei super ótimo que o Papa tenha a mesma opinião que eu. Isso é que é argumento de autoridade! Porque, né, essa historia de ‘créditos de carbono’ é completamente esquisita desde o início, super questionável e apenas desloca o problema. De novo, é uma forma de continuarmos a fazer a mesma coisa, achando que estamos compensando algo, tipo aquela música do Tom Zé: “faça suas orações uma vez por dia, depois leve a consciência, junto com os lençóis, pra lavanderia” (AMO essa música).

Também achei cool (não que isso importe para o Papa – sem sombras de dívidas ele nem pensa nisso) o fato da Encíclica citar o conceito de “economia circular”! Super moderno e antenado! (de novo, não deve ser esse o objetivo, mas enfim) Porque, né, “o sistema industrial, no final do ciclo de produção e consumo, não desenvolveu a capacidade de absorver e reutilizar resíduos”. Gente, agora que o Papa falou, vamos, por favor, adiantar isso aí? E acabar com essa “cultura do descarte”…

Outra parte linda é: “Qualquer abordagem ecológica deve incorporar uma perspectiva social que leve em conta os direitos humanos das pessoas mais desfavorecidas”. Acho isso essencialmente importante para acabar, de uma vez por todas, com a ideia de pessoas que abraçam árvores, cuidam de baleias, mas não estão nem aí para os outros seres humanos. Não! Todos os esforços de preservação ambiental têm como finalidade última salvar as pessoas que, por enquanto, ainda habitam esse planeta. A ideia é: vamos cuidar do planeta e do meio ambiente porque é aqui que nós moramos!

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No fim, a questão é a sobrevivência da humanidade, então toda ação que proteja o meio ambiente nos protege também. Por isso, devemos prever essas questões (ambientais + sociais) interligadas desde o início do planejamento de qualquer ação.

Para aqueles que acham que a tecnologia vai resolver tudo, a mensagem é claríssima: “A tecnologia, ligada aos setores financeiros, que pretende ser a única solução aos problemas, é incapaz de enxergar o mistério das múltiplas relações que existem entre as coisas e, consequentemente, resolve um problema criando um novo”. Ou seja, vamos ter mudar. MUDAR. Mesmo. Foi mal te tirar do conformismo, mas a parada é séria.

E, tipo assim, a realidade é muito mais complexa do que números, dados e aplicativos de celular. Nas palavras bonitas do Papa, “o antropocentrismo moderno acabou por valorizar muito mais a razão técnica em detrimento da realidade. A vida está sendo abandonada às circunstâncias condicionadas pela tecnologia, vista como o principal meio de interpretar a existência”. Pois é, vida. Realidade. Complexidade. PESSOAS.

Pra encerrar, Francisco lembra que a Terra “nos foi dada”, por isso, devemos cuidar dela e não explorá-la sem limites. Ok, podemos aproveitar o que ela tem a oferecer, mas, gente, também não é bagunça!

A solução é simples e complexa ao mesmo tempo: “um crescimento pela sobriedade, e uma capacidade de desfrutar (…) sem estar obcecado com o consumo”.

Amém!

P.S.: a Encíclica em si é zilhões de vezes mais bonita do que o meu mísero fichamento, aconselho enormemente a leitura do documento completo ;)

Para isso, acesse: http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html